Eco-revolução na cozinha: negócios locais inovam para uma mesa sustentável

Iniciativas trazem alimentos sem agrotóxicos para os moradores de Curitiba, além de transformar resíduos orgânicos – que iriam para o aterro sanitário – em adubo

Ter uma cozinha sustentável desde a origem dos alimentos até a destinação dos resíduos, não apenas é possível, como pode custar menos de cem reais mensais por morador. Uma residência com dois adultos, onde cada um investe R$ 24,12 por semana, pode receber alimentos suficientes para a preparação diária das principais refeições e ainda destinar corretamente o lixo gerado no processo. De bônus, ganha a possibilidade de escolher entre receber um quilo de adubo ou uma muda a cada mês.

 

A conta ao lado considera o valor de R$ 138,00 ao mês para o recebimento de uma cesta semanal de alimentos agroecológicos – produzidos pelo cultivo familiar e sem uso de agrotóxicos. A aquisição, é oferecida através da CSA Ceafim, organização que une produtores e consumidores de forma colaborativa. Somado a isso, está o preço da coleta e transformação de resíduos orgânicos pela empresa Compostar Curitiba, que sai por R$ 55,00. Juntos, os
serviços oferecidos na capital paranaense resultam em R$ 193,00 mensais e suprem a necessidade média de duas pessoas.

Para receber a cesta de alimentos, o consumidor precisa estar disposto a fazer uma aposta e virar parceiro, passando ao que a organização responsável chama de co-agricultor, além de abrir mão de alguns hábitos. Para participar, o pagamento é antecipado, requer assiduidade mensal e não é possível eleger itens. Diferente de uma ida ao mercado ou de pedir uma cesta por encomenda, o co-agricultor recebe os alimentos disponíveis na época. O que significa arriscar a ter que descobrir como cozinhar algum vegetal nunca visto antes ou ter de ficar sem tomates durante o inverno.

Co-agricultor urbano

Em Curitiba, a CSA Ceafim (sigla para Comunidade que Sustenta a Agricultura do Centro de Envolvimento Agroflorestal Filipe Moreira) e a AOPA – Associação Paranaense de Agroecologia são organizações que trazem à cidade, por um preço justo, alimento cultivado de modo saudável e ecológico. As iniciativas possuem dinâmicas diferentes, mas têm em comum o fato de conectar consumidores e produtores. Essa relação entre as duas pontas possibilita uma comercialização direta e compatível com os princípios desse tipo de produção: equilíbrio
ambiental, justiça social e viabilidade econômica.

“É uma proposta que, se a gente fosse colocar dentro de uma linguagem comercial, poderíamos dizer que é uma sociedade. A gente entra, portanto, acessando tanto os lucros, quanto as responsabilidades e possíveis ônus desse sistema”, explica Ana Carolina Volpato Correa, 40 anos, uma das co-agricultoras fundadoras do CSA Ceafim.

Existem duas opções para o recebimento das cestas, uma é a assinatura da cota inteira, no valor de R$ 273 (em qualquer caso, R$ 3,00 são para manutenção da organização que divulga e informa sobre este gênero de iniciativa). Já a cesta menor, chamada de meia cota, é a citada no início do texto e custa a metade.

Os alimentos são produzidos em Barra do Turvo (SP), há cerca de 150 km de Curitiba (PR), no sítio Ceafim, que empresta nome ao CSA. O local, liderado por Pedro Oliveira (conhecido como Pedro Baiano) e Maria de Lourdes, há 25 anos produz alimentos agroecológicos e agroflorestais (sistema em que o cultivo ecológico de alimentos convive, lado a lado, com a floresta). Junto a outros 11 agricultores, o casal planta uma grande variedade de
vegetais, além de produzir alimentos minimamente processados.

As cestas semanais contêm dez itens ou mais, que podem variar a cada semana, de acordo com a disponibilidade de alimentos, e são entregues na Casa Tekuá, no Jardim Social, onde vive Ana Carolina. Lá, são repartidos e as cestas retiradas pelos próprios membros, atualmente 36 co-agricultores.

A depender da época, as cestas podem incluir, inclusive, alimentos que tem um alto valor agregado, como nhoque de mandioca, coxinha vegana, palmito e melado clarificado. Todos produzidos artesanalmente pelas famílias de agricultores do CSA.

O grupo, que começou a ser criado há um ano, ainda dá os primeiros passos, mas tem potencial para entregar quatro vezes mais. A remessa inaugural foi feita em agosto desse ano, mas os 13 produtores já têm capacidade para abastecer cem consumidores parceiros e o objetivo é chegar a 150, quantia que viabiliza uma renda adequada aos trabalhadores do campo.

Da mesa para o lixo

Também há cerca de um ano, dois jovens recém-formados e inspirados por experiências que conheceram na Suíça e na Austrália, durante intercâmbio, decidiram apostar em algo inédito na cidade: vender um serviço de coleta domiciliar e tratamento de lixo orgânico, transformando-o em adubo.

Assim, nascia o Projeto Compostar Curitiba, criada por Théo Branco e Luiz Falcão, ambos engenheiros ambientais. Desde a faculdade eles estudavam resíduos orgânicos e somada à inspiração internacional, encontraram respaldo no Projeto Compostar de Brasília, pioneiro no ramo, que trouxe um formato inicial ao negócio.

A decolagem aconteceu com financiamento coletivo e visava a coleta residencial. Era um teste para saber se a iniciativa daria certo. Os apoiadores faziam uma assinatura contemplando coleta semanal e compostagem, além do recebimento mensal de uma muda de hortaliça ou de um quilo de adubo. Houve adesão e, mais que isso, antes do final de 2018, a dupla começou a ser procurada por restaurantes interessados no serviço.

A demanda cresceu e os dois chamaram Igor Oliveira, 24 anos, engenheiro químico com quem trabalharam previamente. No começo, todos faziam de tudo: administração, coleta e compostagem. Doze meses depois, o Projeto Composta já atende 170 residências e 80 restaurantes, que geram de 30 a 40 toneladas por mês.

E o mercado potencial ainda é imenso. O terceiro do time afirma que “20% dos gases de efeito estufa do mundo, são proveniente de aterros, e só Curitiba gera 33 mil toneladas de resíduo orgânico por mês. É uma realidade que precisa mudar. A empresa veio para dar o fim correto a esses resíduos”.

O serviço residencial tem diferença entre os planos de acordo com o volume e fica proporcionalmente mais barato quanto maior a geração. Para uma casa com três ou mais pessoas o custo é de R$ 65,00. Para até dois moradores, o plano é o de R$ 55,00, como mencionado na abertura da matéria.

Estabelecimentos comerciais possuem planos diferenciados, que variam de acordo com volume e frequência da coleta, mas o plano intermediário – com a coleta de duas bombonas, duas vezes por semana – é o que atende à maioria desses clientes. O custo fica na faixa de R$ 220,00 por mês. Em todas as categorias do serviço, são oferecidas plantinhas ou adubo como retorno ao contratante, um modo simples e didático de demonstrar o fechamento do ciclo.

Entre as pessoas que precisaram ser contratadas atender à demanda crescente, está um funcionário que cumpre pena com o uso de tornozeleira eletrônica. Assim, ele reduz a sentença – a cada dia trabalhado, são reduzidos três – e garante sua reinserção social. “No dia que começou a trabalhar, todo mundo ficou comovido em ver a felicidade dele. São esses impactos que a gente quer trazer para o dia-a-dia”, conta o engenheiro químico, sem disfarçar o entusiasmo.

Tanto o CSA Ceafim quanto o Projeto Compostar, oferecem, além de novas soluções ou produtos, uma cultura e uma lógica diferente de se relacionar, seja com o alimento e seus resíduos, como com as pessoas envolvidas. Um exemplo singelo disso é a resposta que Igor dá uma questão simples. “Quantas pessoas já são empregadas pela empresa?”. Ele pensa um pouco e o número não vem. Então, começa a discorrer nome por nome – Juliano, Diego, Matheus, Gaúcho, Maya – comenta algo da história de cada um e em que área atua. Além desses, lembra, outra funcionária está prestes a se juntar ao time. Fazendo as contas, seis é o número de funcionários, além dos três sócios.

Mas não é um número. Longe de revelar uma desatenção do jovem empreendedor, o modo como fala de cada pessoa mostra que a inovação está aí. O foco é outro. É no outro. “Vemos que tem muito potencial de mudança, não só ambiental. É social e ambiental nosso trabalho, com o social na frente porque muitos problemas são gerados pela má destinação”, resume.

O modelo tradicional de negócios tem métricas de sucesso e empurra a “produzir, produzir, produzir”, como diz o engenheiro de 24 anos. No entanto, a iniciativa de pessoas jovens e nem tão jovens assim, inconformadas com esse modelo, descortina um horizonte que parecia impossível pouco tempo atrás. Há cinco anos, quem pagaria para a coleta do próprio lixo sendo que há um serviço público para esse fim?

“O desafio maior é educar quem recebe e consome os produtos, no sentido de criar uma relação diferente com a produção”, conta Ana Carolina. No caso do CSA, o compromisso se mantém, mesmo que a produção sofra de revezes e intempéries. “Se, por acaso, tiver uma tempestade que acabe com essas plantações, a gente não deixa de pagar esses agricultores”, explica.

Nessa dinâmica, os clientes pagam pelo que acreditam, não só pelo que consomem. Mas, segundo a co-agricultura, a colheita tem sido farta. “Para nossa sorte, esse grupo de 13 agricultores é muito experiente, eles têm uma terra que já está boa e anos de produção. Então, é como entrar numa sociedade em que a outra parte é especialista, nesse sentido, nosso risco é muito pequeno”.

 

Propulsão Local

O CSA Ceafim, a AOPA e o Projeto Compostar Curitiba, são três entre as 50 iniciativas selecionadas para o projeto Propulsão Local. A ação está desenvolvendo de forma gratuita soluções em comunicação e tecnologia para negócios criativos e sustentáveis que atuam em Curitiba e Região Metropolitana.

O Propulsão Local é uma iniciativa do Coletivo Soylocoporti e da Rede Livre, em parceria com Lab1299, Instituto LocalBIz, Terraço Verde e uma rede de profissionais, organizações e negócios. Para mais informações, acesse www.propulsaolocal.com.br

 

 

Artigo publicado originalmente em: http://www.kaleydos.com.br/eco-revolucao-na-cozinha/


 

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